"Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o Perdão"

Senhora Heloisa Vinadé

Coordenação de Teatro

Ceacen/Funarte


Escolhi este 18 de setembro para responder a sua mensagem enviada dias atrás para o meu e-mail por ser este um dia especial à Nação Brasileira, principalmente um teste para nossa recente Democracia. Escolhi também, dentre tantas obras importantes às artes brasileiras esta para ilustrar a nossa conversa, música que povoou o coração de muita gente há quarenta e tantos anos e, por certo, também o seu. Já não somos crianças, somos quem sabe por direito e fato os pais desta Democracia que insistimos cantar. Para quem ainda está alheio ao assunto, aqui vão algumas informações (*).

Senhora Heloisa Vinadé, querendo ou não, fazemos parte de um mesmo livro e de um mesmo enredo, cujo título é O Teatro Brasileiro. centenas de profissionais escreveram, com a própria vida, esta epopeia que muitas vezes ganhou contornos de  tragédia, outras de comédia e muitas delas obra de absoluto escracho. Por mais que muitos queiram ignorar tal fato, somos muitos os personagens (“braços dados ou não”)de um mesmo livro. De minha parte, nem me interessa muito qual a avaliação que uns ou outros possam fazer a respeito da minha performance, pois meu nome consta dessa ficha técnica; e isso me basta. Lutamos tanto para viver um Brasil democrático que tenho plena segurança para afirmar que existe espaço para todos. Quem parece estar fora de foco é a FUNARTE atual que, às vezes, parece  estar queimando a sua própria história; sou mais um dentre tantos que construiu esta mesma historia e, portanto, "vamos ao trabalho".

 “Não se distribui dinheiro público, como se joga milho para pombos da sacada do terraço para os galináceos famintos”

Ficam dispensadas, desde já, citações a respeito de itens do edital ou no plural (se preferirem), pois, os mesmos são redigidos (como é do seu conhecimento) na mesma sala ou quem sabe até no mesmo teclado dos demais, sob o mesmo olhar e sobre a mesma orientação. Li o texto deste que orienta esse pleito inúmeras vezes da mesma forma outros tantos do mesmo forno, com os quais comparei. Agravado ainda pelo fato de, se voltarmos um pouco mais, será identificada muitas sugestões e críticas debatidas sempre num clima amistoso (por e-mail) com o antigo presidente da FUNARTE. Portanto, vamos ao trabalho.

O que é colocado em sua mensagem como excepcional, a exemplo do ocorrido na edição do Prêmio Myrian Muniz, a inscrição de 1808 projetos é consequência da falta de política adequada à nossa realidade e um descuido de observação da sua parte. Este Volume  Desproporcional a capacidade de o estado atender revela que  a senhora e todos os seus pares não conseguem enxergar, ou seja, um número imenso de profissionais das Artes Cênicas com a inexistência de resposta eficaz, democrática e humana para o exercício de seu trabalho. Não se resolve esta questão com o que ficou expresso em sua mensagem: "A Funarte tem fomentado as Artes  através de Editais, pois,  acredita que é a forma mais democrática e isonômica de distribuir o dinheiro publico". Não se distribui dinheiro público como se joga "milho pra pombos" da sacada do terraço para galináceos famintos, como faziam os coronéis no tempo do Império. Muito menos se joga alimentos para uma multidão de desesperados, da mesma forma que os soldados do exército brasileiro em regiões de conflito internacional ou Haiti. Não estamos no Haiti (AINDA NÃO) e, espero, que tal humilhação deixe de acontecer. Falta coragem, competência e, acima de tudo, responsabilidade para com a maioria dos artistas.

 A tolerância e "vistas grossas" para com dirigentes de organizações, em detrimento do apelo do artista individual (a grande maioria), provoca sem  nenhuma dúvida uma contradição insustentável. Acredito que involuntariamente (SIM, EU AINDA ACREDITO NA BOA VONTADE DO SER HUMANO), tanto o MINC quanto em grande parte a FUNARTE estão fazendo com a maioria dos artistas e o que a grande imprensa, oposição e a elite brasileira com a atual gestão no governo brasileiro. A amarga lição não está sendo suficiente para aprender o mínimo, qual seja, a racionalidade daí a similaridade dos "desatinos" da FUNARTE no caso 'Myriam Muniz' bem como o da maioria dos projetos emanados na repartição da qual a senhora pertence como coordenadora. Sugiro que leia e quando possível assista ao espetáculo "EU NÃO DAVA PRAQUILO", que trata da vida e obra da extraordinária artista MYRIAN MUNIZ, que empresta seu nome ao "concurso". Dessa forma, será possível observar o espírito de busca, pesquisa e a insatisfação revelada por vida e obra passando bem longe dos procedimentos adotados no atual edital.

foto acima: Qualé, meu!! Adaptação sobre o livro O que é isso companheiro (jair alves, José de Abreu e Ecila Pedrodo - 1980)

foto abaixo: Missa do Vaqueiro. Musical que inaugurou a Sala Funarte e em São Paulo. Elenco Jair Alves, Celia Helena e Marcus Alvisi - direção Renato Borghi. assistencia de direção Elias Andreatto. 1978.

Defendo ainda que nos seguintes, caso a Metodologia dos "Editais" continue, que a Funarte exija semestralmente de toda e qualquer entidade ou organização coletiva que mantenha vínculos contratuais com organismos públicos disponibilizem em sites e portais próprios todo o volume financeiro a sua real aplicação para que todo artista e cidadão brasileiro saibam exatamente para a onde está indo cada centavo do disputado.

 Hoje, em que alguém poderia ser condenado sem uma segunda chance para se defender peço para que todos "aqueles" que mantém algum poder de decisão na estrutura oficial que administra a Arte e a Cultura no Brasil, faça uma reflexão profunda a respeito da batalha travada entre o político e o legal e veja  qual a lição que podemos retirar disso. Felizmente, no episódio de hoje o legal e a legitimidade tiveram sucesso, porém, isso poderá não valer para os artistas. Uma outra questão que aí está  para quem quiser assimilar, é que durante o processo ditatorial alguns artistas foram fundamentais para a construção da Democracia e às vezes lutam contra "moinhos de vento".

 Jair Antonio Alves

 (*) Eu, Jair Antonio Alves, ator e dramaturgo da mesma forma exercendo uma dezena de funções no teatro brasileiro nos últimos quarenta anos, desde o inicio da gestão PT/PMDB/PCdoB e vários outros "partidos satélites" à frente do governo da União venho tentando colaborar para que o Teatro volte a ter lugar de destaque na história contemporânea dessa forma o mesmo peso teve dos tempos aonde à música acima foi uma espécie de "hino" dos pobres e perseguidos. A tentativa passou por várias etapas e, recentemente ganhou contornos de conflito. Continuo, no entanto, voltado a pensar positiva e coletivamente.

Muitas pessoas dentre as quais me incluo, entendem que a Funarte de hoje, único instrumento governamental da União que deveria ter como função proteger e fiscalizar as Artes e os Artistas no Brasil, ao contrário está indo à contramão de todas as conquistas da gestão citada;

Heloisa Vinadé coordenadora de Teatro - Ceacen/Funarte que após  vários embates deu me a honra de responder a uma mensagem onde questionava a forma viciada com que são distribuídos recursos para o teatro brasileiro, via Prêmio Myrian Muniz. Ela, por certo, terá à oportunidade de trazer a  público e a quem interessar possa sua contribuição às Artes e a Cultura Brasileira. Tenho certeza que não terá nenhuma dificuldade para fazê-lo, caso necessário for.

 

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Mensagem recebida uma semana depois do pedido de informação para impetrar recurso contra o julgamento feito no Premio Myrian Muniz - 2013.

OBS: o prazo era de dois dias e só veio posteriormente, logo a empresa que se inscreveu no edital não tinha informações a respeito das notas que o projeto tinha recebido. 

----- Original Message -----
From: Teatro
Sent: Wednesday, September 11, 2013 2:57 PM
Subject: RES: Urgente (urgencia determinada pelos dois dias que são conferidos ao proponente recorrer em edital)

Senhor Jair Alves,

Como seu caso não é um recurso pois o senhor não identificou seu projeto, farei alguns esclarecimentos sobre o edital do Prêmio Myriam Muniz de Teatro.

O edital do Prêmio Myriam Muniz de Teatro pretende ter a clareza necessária para que a transparência de todas suas etapas fique evidente.

Na 1ª fase  do processo de seleção está assim descrito no edital:

7.1 Habilitação

7.1.1 A habilitação compreende: triagem, de caráter eliminatório, com o objetivo de verificar se o proponente cumpre as exigências previstas para inscrição neste edital.

PARÁGRAFO ÚNICO: Esta etapa será realizada por uma Comissão de Habilitação, nomeada pelo Presidente da Funarte.

7.1.2 A lista das propostas habilitadas e inabilitadas será divulgada na página eletrônica da Funarte (www.funarte.gov.br).

7.1.3 Os candidatos não habilitados terão um prazo de 2 (dois) dias úteis, a contar da publicação da lista a que se refere o item anterior, para interpor recursos à Comissão de Habilitação da Funarte.

7.1.4 Os recursos referentes à inabilitação da inscrição deverão ser enviados para o endereço eletrônico teatro@funarte.gov.br, não cabendo a apresentação de documentos não enviados no momento da inscrição.

7.1.5 Os recursos serão julgados pela Comissão de Habilitação em até 5 (cinco) dias úteis e homologados pelo Diretor do Centro de Artes Cênicas.

7.1.6 Após análise, os resultados dos recursos serão publicados no site da Funarte, sendo de total responsabilidade do proponente acompanhar a atualização dessas informações.

Quanto a 2ª fase, que chamamos de AVALIAÇÃO, segue, rigorosamente, também o que está escrito no edital e sendo assim entendemos que há clareza e transparência no processo de avaliação.

 O edital torna-se o guia, o que deve ser seguido em todas as suas etapas.

Nesta etapa o edital é claro e diz:

7.2 Avaliação

7.2.1 A avaliação, de caráter classificatório, abrangerá todos os projetos habilitados e será realizada por uma Comissão de Seleção, nomeada por Portaria do Presidente da Funarte. Essa comissão será composta por 10 (dez) membros especialistas em teatro.

7.2.2 A Comissão de Seleção será coordenada por um representante designado pelo Presidente da Funarte, sem direito a voto.

7.2.3 O projeto em cuja ficha técnica conste algum membro da comissão a que se refere o item 7.2.1 será, automaticamente, desclassificado.

7.2.4 A Comissão de Seleção conferirá notas aos projetos, de acordo com os critérios e pontuações abaixo:

CRITÉRIOS PONTUAÇÃO

a) excelência artística do projeto 0 a 20

b) qualificação dos profissionais envolvidos 0 a 15

c) viabilidade prática do projeto 0 a 15

d) planejamento/cronograma de execução do projeto. 0 a 15

e)estratégia de comunicação, divulgação e formação de público 0 a 15

f) conformidade com os objetivos do edital 0 a 10

g) relevância cultural do projeto 0 a 10

TOTAL 0 a 100 pontos

7.2.5 Cada projeto será avaliado por pelo menos 2 (dois) membros da Comissão de Seleção, e sua nota final será resultado da soma das notas individuais dos avaliadores.

7.2.6 Os projetos que não atingirem a média mínima de 6 pontos, nota de corte, não participarão da avaliação final.

7.2.7 A premiação por nota será estabelecida por mérito das maiores pontuações, por módulo, por categoria, por região e em ordem decrescente.

7.2.8 Havendo empate entre a nota final dos proponentes, o desempate seguirá a seguinte ordem de pontuação dos critérios:

a) maior nota no critério excelência artística do projeto;

b) maior nota no critério viabilidade prática do projeto;

c) maior nota no critério relevância cultural do projeto;

7.2.9 Persistindo o empate entre as notas, a Comissão de Seleção, por maioria absoluta, estabelecerá o desempate.

7.2.10 A relação dos proponentes selecionados, em ordem decrescente de notas, será divulgada na página eletrônica da Funarte (www.funarte.gov.br).

7.2.11 Poderão ser interpostos recursos que deverão ser enviados para o endereço eletrônico teatro@funarte.gov.br, no prazo de até 2 (dois) dias úteis após a publicação do resultado, de acordo com o que estabelece a Lei 8.666/93.

7.2.12 Só serão aceitos recursos com a sua justificativa.

7.2.13 A Comissão de Seleção designará, entre seus membros, 3 (três) especialistas que farão o julgamento dos pedidos de reconsideração.

7.2.14 Os resultados dos recursos serão informados direta e individualmente aos recorrentes no prazo de até 5 (cinco) dias úteis após o período constante no

item 7.2.11.

7.2.15 Após o julgamento dos recursos o resultado final será homologado pelo

Presidente da Funarte e divulgado no Diário Oficial da União e no site da Funarte

(www.funarte.gov.br / www.cultura.gov.br).

 

A Funarte segue passo a passo o que sempre esteve escrito e determinado no edital portanto a transparência de todo processo está assegurado pelo edital que rege o Prêmio Myriam Muniz de Teatro. Quem enviou projeto, quem concorreu, ao Myriam Muniz não foi surpreendido com uma nova cláusula, com uma nova regra, colocada no edital. Tudo estava posto.

O senhor  reclama que não é oferecida “nenhuma oportunidade  do proponente preterido na escolha de poder argumentar, já que sequer sabe qual a avaliação de sua proposta”.  O edital diz:

7.2.10 A relação dos proponentes selecionados, em ordem decrescente de notas, será divulgada na página eletrônica da Funarte (www.funarte.gov.br).

No edital não está escrito que as notas de cada critério seria publicada.

O resultado, repito, segue, rigorosamente, o que está estabelecido no edital. A Funarte de maneira nenhuma dificulta a interposição de recurso.

  O edital não prevê em nenhuma cláusula, item, que serão publicadas as notas individuais e a justificativa de cada jurado sobre cada projeto. Insisto que não há no Edital do Prêmio Myriam Muniz de Teatro nenhum item referente a esta questão. O edital não prevê a divulgação da avaliação de cada proposta.

 Ao fazer a inscrição, ao preencher o formulário do salic web, está escrita a seguinte frase:

“A inscrição efetuada implica na minha plena aceitação de todas as condições estabelecidas no edital”.

A Funarte tem fomentado as artes  através de editais pois acredita que é a forma mais democrática e isonômica de distribuir o dinheiro publico. Todo concorrente, proponente, tem iguais direitos de participação e como todo concurso as propostas deverão passar por uma avaliação. No caso de edital do Prêmio Myriam Muniz há  uma comissão de 10 especialistas em teatro, escolhidos pela Funarte que consulta além do Colegiado Setorial de Teatro suas representações estaduais, Minas Gerais, São Paulo, Brasília outros órgãos de cultura, que avalia os projetos. É um processo claro e transparente.

A Funarte trabalha para os artistas do Brasil e tem lutado para o aumento de seu orçamento anual o que possibilitaria uma maior aplicação de recursos financeiros no Prêmio Myriam Muniz de Teatro. Neste ano de 2013 foram 1808 projetos concorrentes para selecionar apenas 108 projetos. É essencial afirmar que inúmeros projetos muito bons não foram selecionados. Toda seleção  pressupõe uma exclusão.

 

Esclareço que todas as considerações a respeito do edital que rege o Prêmio Myriam Muniz de Teatro, não somente as suas, serão levadas à discussão para elaboração do próximo edital de 2014.

 Informo que determinadas clausulas não poderão ser retiradas da redação dos editais da Funarte porque elas seguem o estabelecido pela Lei Nº 8.666/1993 e a Portaria Nº29/2009 do MinC, sendo  exigências dos órgãos controladores.

 

Heloisa Vinadé

Coordenação de Teatro
Ceacen/Funarte
(21) 2279-8018
.

 

 

De: Jair Alves [jairmacunaima2012@gmail.com]
Enviado: quarta-feira, 4 de setembro de 2013 12:55
Para: assessoria presidencia; ceacen; Teatro
Assunto: Fw: Urgente (urgencia determinada pelos dois dias que são conferidos ao proponente recorrer em edital)
Encaminhamento para o seu conhecimento.
 
grato
 
Jair Antonio Alves - São Paulo
 
 
----- Original Message -----
Sent: Wednesday, September 04, 2013 12:52 PM
Subject: Urgente (urgencia determinada pelos dois dias que são conferidos ao proponente recorrer em edital)

Caro Senhor Gotschalk da Silva Fraga – Guti Fraga

 

Presidente da FUNARTE

 

Participo ainda que sem nenhuma esperança de ser avaliado com a acuidade que gostaria e mereço, do edital Premio Myrian Muniz de Teatro neste 2013. No dia de ontem o site da FUNARTE publicou a lista dos contemplados nos respectivos módulos. No meu caso o interesse foi o B, montagem teatral. Não fui escolhido o que não me causa nenhum espanto por motivos que um dia talvez possamos discutir mais detalhadamente. O que me causa indignação e ao mesmo tempo estranheza é que a mesma publicação fala de recurso no prazo de dois dias (previsto no edital) porém não oferece nenhuma oportunidade do proponente preterido nesta escolha de poder argumentar, já que sequer sabe qual a avaliação de sua proposta. Sei perfeitamente que vivemos nos dias atuais momentos e situações extravagantes e misteriosas porém sem nenhum ranço de ironia eu pergunto:

 

se o proponente não sabe porque não foi escolhido por que lhe é "dado o direito de recorrer"? Estamos diante de uma situação criada por Franz Kafka ou faltou algum texto nesta publicação citada acima.

 

No aguardo imediato de sua manifestação

 

Jair Antonio Alves

Havendo a ligação de arte a produto e produto a consumo, tudo leva a crer que o “amor à arte” está concomitantemente associado ao “sobreviver da arte”, com a derivação “lucrar com a arte”, e finalmente o que escapa de todos os âmbitos burocráticos: o “viver com arte”, que remete à imagem da investida contra o moinho que todos sabem ser um moinho e nós sabemos que é o mágico Frestón abanando os braços feito o bloqueador impedindo o arremesso à cesta. Na impossibilidade de arremessar, tenta-se o drible.

Sua manifestação incorre em algumas hipóteses e numa certeza.

Hipótese: ser lido de forma simplista e tido choro de mau perdedor que assina o termo de aceitação de todos os critérios das comissões organizadora e julgadora, que apesar de soberana e irrevogável permite um gesto formal de esperneio, e bota formal nisso (e formol), porque o julgamento artístico não tem relevância bastante pra ser transmitido em rede nacional de TV, assim como artista (a maioria) não dispõe de advogados tops-de-linha nem força política que motive redes de apoio. Até aí, estamos atolados no pântano da subjetividade e a minha impressão é de que um julgador regra-três dificilmente contestará o titular, porque em outra ocasião os papéis estarão invertidos, e favor com favor se paga.

Hipótese: ser lido com íntima concordância e adesão silenciosa e o sentimento de esperança de que pelo menos existem malucos pra mostrar a cara e confrontar um sistema cristalizado contra o qual não há chances de apelação, mas a queimação de filme pessoal poderá, quem sabe, criar algumas brechas que levem a alguma mudanças na política institucional de fomento ao artista segundo critérios mais compreensíveis, compreensivos (de compreender fisicamente) e discutíveis (no sentido de permitir um mínimo espaço de debater, que não seja tomado como esperneio de perdedor). Afinal, se a grana é pública, cada artista público-individual deveria ter o direito de defender sua proposta e sua concepção sobre a necessidade da arte. Aí entramos em terreno um pouco mais concreto, apesar de silencioso, porque o problema de se formatar (mentalmente) esse sistema concorrencial permanente cria bloqueios à livre manifestação de discordâncias quanto ao método. A síndrome da queimação de filme, e prezado Jair, desconfio que dificilmente receberá convites pro amigo secreto no final do ano, haha.

- Hipótese: além do fator intimidatório da carbonização de futuras tentativas, o sistema concorrencial produz um gargalo no aspecto ideia estética, um simulacro do sistema Fuvest, em que se tenta amoldar a critérios de avaliação, detectando tendências padrões-favoráveis, temas de moda, estilos mais adequados que vão desde o tema até os modos de apresentação formal, além do uso de artifícios de impacto. Ou seja, não demora pra surgirem cursinhos preparatórios aos aspirantes a editais, como já existem pra vestibulares, Enem e concursos públicos. Agradar ao júri é a alma do negócio.

- Hipótese: simples mortais podem até ser bem avaliados pela proposta em si, pelo valor intrínseco da obra, mas é julgamento aberto e existem figuras hors concours que concorrem, e eu se fosse julgador hesitaria muito pra desclassificar um artista de quem sou admirador incondicional. Salvador Dali “pegou” a coisa na unha quando começou a vender gravuras só com a assinatura e Duchamps transformou o fato em representação. Suponho que haverá em breve também especialistas em confecção de currículos (obrigatórios na adesão a um edital) e artistas iniciantes, seja de qual idade, terão de frequentar centenas de workshops, palestras e cursos livres de um dia, pra marombar os respectivos históricos de vida. O dopping curricular vem aí.

- Hipótese: o modo vestibular dos editais leva à falsa ideia de “loteria”. Em loterias sempre existe a chance de dar um “rabo” federal, mesmo arriscando no delirante. O edital não permite riscos, não é pra iniciantes. É preciso nome, estrutura, currículo, conjunto da obra, associação a coletivos de prestígio, com canais abertos junto às instâncias político-partidárias, afinidade ideológica e estética com as comissões julgadoras e, ultimamente me parece, empenho em inserir elementos politicamente corretos ou transgressividade “aceitável” segundo cânones da rebeldia apropriada. Trata-se, enfim, de trabalho de construção de argumentos, exatamente o que faz o hábil advogado de defesa.

- Certeza: editais homogeneízam o fazer artístico, e se o artista precisar também frequentar supermercados, além de mostras e bibliotecas, deixa aos poucos de fazer arte pela arte e passa a fazer arte pra ganhar edital. Passa a pensar e a executar de acordo com parâmetros de agentes e investidores privados, porque são os que possuem a “sensibilidade” em interpretar tendências do público consumidor, mesmo que esse público prefira pagar os olhos da cara em corporações halls a pisar em salas de mostras e espetáculos fora do circuito in. Resumo da ópera: espetáculo bancado por grana pública não precisa de público.

Liu,

Como sempre, você tem uma percepção da realidade que poucas vezes (poucas mesmo) eu tive a grande oportunidade de conhecer, me relacionar (e compartilhar).

Parabéns (como se precisasse). És UM ILUMINADO! Desde a muito se deixou de lado o FAZER A ARTE PELA ARTE. O importante, hoje, é o “FAZER RIR”. Sinceramente, mesmo que eu esteja sozinha assistindo televisão fico com vergonha quando aparece uma propaganda para divulgar um “espetáculo” (é espetáculo mesmo, com palhaço – e/ou nariz de palhaço), seja qual for o autor “do comercial”.

Não consigo (além da vergonha), ter um sentimento de muita tristeza. Tudo o que acontece com a CULTURA hoje (de uma forma geral), é muito triste mesmo.

Suely

Iluminado, Suely??? O último endoidou num hotel no meio da nevasca, haha.

Trata-se de prazo de validade, né? Tudo caduca muito depressa hoje em dia e não consigo me lembrar de algum "espetáculo" que se registre na memória, nem pra papos nostálgicos (salvo honrosas exceções). É pra preencher guias de entretenimento e matar tempo antes ou depois do sashimi. Ainda bem que o espírito velho guerreiro ainda segue dando murro em ponta de faca. Deveria haver um movimento geral, porque se um só incomoda, vários podem transformar.

 

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